Do Big Bang à cadeira do Seu Toco
Harari, na parte 1 de Sapiens – Uma breve história da humanidade, trouxe uma frase instigante, que é um estímulo à leitura do livro:
“Há cerca de 14 bilhões de anos, a matéria, a energia, o tempo e o espaço surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang.”
Catorze bilhões de anos. Trezentos mil anos depois do Big Bang, a matéria e a energia começaram a se aglutinar em átomos, que se combinaram em moléculas. Quatro bilhões de anos atrás, em um planeta chamado Terra, certas moléculas formaram os primeiros organismos vivos.
Li e reli o texto de Harari e sempre me perguntava se já teria lido algo semelhante em outras fontes. Tenho a certeza de que sim, em leituras — cujos nomes o tempo apagou da minha memória — anteriores às de González Pecotche. Depois no próprio Pecotche, muito antes de eu chegar a Harari.
Harari lançou Sapiens em Israel, em 2011, mas González Pecotche, o pensador e humanista argentino, abordou o tema antes.
Em 1935, o criador da Logosofia, em texto publicado na revista Aquarius, escreveu: “ao falarmos do mundo atômico da época em que a Terra começou a se formar e se organizar, dizíamos que todas as colônias atômicas iniciaram suas atividades através da matéria. Os minerais surgiram nas próprias entranhas do planeta que teve por nome Terra, e ali habitaram primitivamente os átomos, dando lugar a que ocorresse a primeira manifestação da vida animada de núcleos inteligentes, esses minúsculos e incógnitos operários da natureza.” (Coletânea da Revista Logosofia – Tomo 2, 2005, p. 64).
Ensina ainda Pecotche, p. 65: “As colônias mais laboriosas progrediram, evoluindo de um estado a outro, capacitando-se para desenvolver maiores atividades, e a mão divina permitiu que as raças que superaram seus esforços passassem do estado de pedra ao reino vegetal. As colônias atômicas tiveram assim sua primeira seleção, vivendo umas nas profundas obscuridades das rochas, enquanto as demais tomaram contato com outros elementos de maior intensidade vibratória.”
Poderia focalizar apenas nos átomos que compõem o presente do Seu Toco — uma antiga cadeira que viajou num carro-de-boi até a Fazenda do Vão e que hoje repousa num canto do meu apartamento em Goiânia. Apenas isso já seria extraordinário, pois esses átomos existem há bilhões de anos e agora estão aqui, sustentando memórias da minha infância.
Mas penso ser necessário destacar o ensinamento de González Pecotche, registrado em 1935, e que a ciência e a historiografia, por seus métodos, não costumam abordar – o plano divino, a mão de Deus: a evolução de algumas colônias atômicas, passando do reino mineral, do estado de pedra, até surgir, após bilhões de anos, um ser de formação perfeita à luz do sol — o homem!
- E quem é esse homem?
Sou eu. É você. Somos nós.
Ramos de uma mesma árvore. Membros de uma só família: a humana — palavras que escrevi como epígrafe de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios, e que hoje, nesta crônica, voltam a fazer sentido.
Somos esse arranjo de moléculas que ganhou consciência e a capacidade de reconstruir memórias de criança.
Talvez seja essa a maior aventura: não a do universo em expansão, mas a de cada ser humano que, em algum momento, para — e se espanta com o simples fato de existir.
Você se espanta? Eu — às vezes — me espanto com a minha própria trajetória.
✒️ Nelson Abrille dos Santos | Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios
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Crônica muito lógica e que agrega elementos essenciais ao avanço da compreensão humana sobre este tema.
Grato, Jadson, pelo comentário e pelo apoio de sempre!