Ao ouvir California Dreamin’, lançada por The Mamas & the Papas em 1965 e transformada em grande sucesso no ano seguinte, iniciei uma pesquisa sobre a essência do chamado Sonho Americano e, por consequência, sobre algumas das contribuições dos Estados Unidos para o mundo.
A música foi apenas o ponto de partida.
Pensei em Elvis Presley e na extraordinária influência da música norte-americana. Do blues e do jazz ao rock, ao country, ao soul e ao pop, os Estados Unidos desenvolveram uma impressionante capacidade de absorver diferentes influências culturais, transformá-las e projetá-las para o mundo.
O mesmo ocorreu em outros campos. Hollywood tornou-se referência mundial no cinema. Suas universidades atraíram e atraem pesquisadores de diferentes países. Mais recentemente, a tecnologia encontrou no Vale do Silício um de seus grandes centros de inovação.
Mas minha reflexão acabou recuando ainda mais no tempo.
Em 1787, os norte-americanos elaboraram uma Constituição que se tornaria uma das mais influentes da história moderna. Não criaram suas ideias a partir do nada: beberam em fontes como Montesquieu, na tradição inglesa e nas experiências republicanas anteriores — um exemplo de como o estudo, a pesquisa e o conhecimento também estão na origem das grandes transformações. A originalidade esteve, em grande medida, em organizar essas influências em uma arquitetura institucional capaz de atravessar os séculos.
Federalismo, presidencialismo, separação dos poderes e um Congresso formado por duas casas exerceriam enorme influência sobre outros países — inclusive o Brasil republicano.
E então me ocorreu uma questão talvez ainda mais interessante: como um país continental, formado por sucessivas ondas de imigração e marcado por enormes diferenças culturais, raciais, religiosas, climáticas e geográficas conseguiu construir uma identidade nacional tão forte?
Não sem conflitos, evidentemente. A história norte-americana inclui escravidão, uma Guerra Civil, segregação racial, profundas desigualdades e períodos de intensa divisão política.
Ainda assim, sobreviveu uma poderosa narrativa de pertencimento, sintetizada numa antiga expressão associada ao país:
E pluribus unum — De muitos, um.
Cinquenta Estados, múltiplas culturas, diferentes paisagens e modos de vida — mas uma ideia capaz de atravessar todas essas diferenças.
É nesse ponto que chego ao Sonho Americano.
A expressão American Dream foi popularizada pelo historiador James Truslow Adams, em 1931, e originalmente significava algo mais amplo do que simplesmente enriquecer: expressava a aspiração a uma vida melhor, na qual as oportunidades não fossem determinadas apenas pela condição em que cada pessoa nasceu.
Com o tempo, o sonho ganhou símbolos materiais: trabalhar, prosperar, comprar uma casa, educar os filhos e oferecer à geração seguinte condições melhores do que aquelas recebidas.
Mas talvez sua essência possa ser resumida numa frase ainda mais simples:
Minha origem não precisa determinar meu destino.
Naturalmente, entre o sonho e a realidade existe distância. Nem todos partem do mesmo lugar. Desigualdades econômicas e sociais, preconceitos e diferenças de acesso à educação demonstram que oportunidade nunca significou garantia de sucesso.
Ainda assim, milhões de pessoas atravessaram oceanos movidas pela convicção de que poderiam recomeçar.
Músicos, cientistas, escritores, empresários, trabalhadores. Gente que fugia de guerras e perseguições e gente que simplesmente procurava uma oportunidade.
Talvez uma das maiores contribuições dos Estados Unidos tenha sido justamente esta: além de instituições, músicas, filmes, ciência e tecnologia, ajudaram a difundir uma poderosa ideia de futuro.
A ideia de que o amanhã pode ser diferente do hoje.
Curiosamente, toda essa reflexão começou apenas porque eu estava ouvindo uma canção antiga, mas atual – naquilo que simboliza.
California Dreamin’.
Alguém está em determinado lugar, mas sonha com outro.
E talvez exista nisso uma pequena metáfora da própria condição humana: somos também aquilo que recebemos de nossas origens, mas podemos continuar sonhando — e trabalhando — para superar o que nelas possa nos limitar.
✒️ Nelson Abrille dos Santos
Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios