A poeira do curral – uma metáfora da vida
Da infância, guardo a imagem do Sr. Galdino, dono da Fazenda do Vão: homem de poucas palavras e gestos firmes.
Certo dia, presenteou-me com uma potrinha xucra — mas impôs uma condição: só seria minha se eu tivesse coragem de montá-la. Tinha entre cinco e seis anos. Aceitei o desafio sem hesitar.
Me puseram no lombo sem qualquer proteção. Quando tentei me agarrar ao pescoço do animal, já me via abraçado pela poeira do curral.
Levantei-me vitorioso e fui puxando a potrinha para o retiro.
Na inocência daquela idade, faltavam-me elementos para identificar que aquela cena era, na verdade, uma metáfora da vida. Afinal, não há conquistas sem aprendizado, assim como não existe bônus sem ônus.
Como viria a aprender anos depois, nos princípios contábeis e jurídicos: para cada débito um crédito, e por trás de cada direito, a obrigação correspondente.
Não dominei o animal naquele dia. Mas iniciava ali, de forma inconsciente, a jornada de domar minhas próprias feras internas — parafraseando González Pecotche.
A poeira do curral foi a primeira de muitas quedas — sem nenhuma consciência, foi uma opção enfrentar o risco, como viria a acontecer no curso da vida. E na altivez daquele menino estava o primeiro sinal de que levantaria sempre.
✒️ Nelson Abrille dos Santos
Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios
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Cada um tem uma lembrança pra contar! Eu literalmente por incrível que pareça também guardo lembrança da poeira e o cheiro das fezes do gado quando em minha juventude fui trabalhar como ajudante de leiteiro.
Dias difíceis que me marcou
Obrigado Luiz. Abraços.