O cheiro da peroba-rosa
Na semana passada, contei aqui sobre o menino que, em 1958, parou intimidado diante do portão da escola.
Em poucos anos surgem novos portões.
Em 1962, meu pai foi admitido na Madeiras Tupaciguara Ltda. (Cemisa). A empresa, além de armazém geral e cerealista, possuía serraria, fábrica de móveis e de tacos de madeira.
Foi ali na fábrica de tacos que, ainda muito jovem, comecei também a trabalhar.
Naqueles tempos, a produção era bastante artesanal. A parte inferior do taco precisava ser preparada antes de sua fixação no contrapiso de cimento. Minha tarefa, assim como a de outros garotos, era molhá-la em piche quente e depois esfregá-la na brita moída.
Era um movimento repetitivo, feito com cuidado: peça por peça.
Apesar do zelo, às vezes o piche fervente respingava no meu pé direito. As queimaduras deixaram cicatrizes — algumas delas acompanhariam por muito tempo aquele menino que começava a deixar a infância para trás.
Mas nem todas as marcas daquele período vieram da dor.
Uma das madeiras utilizadas na fabricação dos tacos era a peroba-rosa. Quando passava pelas máquinas, espalhava pelo ambiente um aroma muito particular.
Nunca o esqueci.
Décadas se passaram. A fábrica de tacos desapareceu, a peroba-rosa tornou-se rara e aquele menino percorreu muitos outros caminhos.
As cicatrizes no pé foram se apagando.
O cheiro, não.
Talvez a memória tenha dessas coisas: guarda aquilo que nem sabemos que estamos registrando.
E, de repente, muitos anos depois, um aroma, um som ou uma imagem atravessa o tempo e nos devolve, por alguns instantes, a lugares que já não existem — mas que, de algum modo, continuam existindo dentro de nós.
✒️ Nelson Abrille dos Santos
Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios
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