Crônicas Atravessando a vida: A “Lei de Gérson” – levar vantagem em tudo

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A corrupção tem pátria — ou nasceu com a civilização?

Você já ouviu falar da chamada “Lei de Gérson”? Aqueles na faixa etária inferior a quarenta anos, talvez não.

Uma frase dita em um comercial dos anos 1970 acabou se tornando um símbolo cultural no Brasil, associada a um comportamento oportunista e, muitas vezes, antiético. O garoto-propaganda era o craque Gérson, jogador da seleção brasileira, que declarava sua preferência por “levar vantagem em tudo”.

Com o tempo, a expressão passou a ser interpretada como sinônimo de malandragem — a ideia de tirar proveito em qualquer situação, ainda que em prejuízo do outro. Houve, inclusive, uma tentativa posterior de reposicionar a campanha, mas sem êxito.

A chamada “Lei de Gérson” acabou sendo conectada ao chamado “jeitinho brasileiro” — expressão que, em sua essência, remete à nossa capacidade de encontrar soluções criativas e informais. O problema é que, não raro, esse “jeitinho” assume um viés negativo, sobrepondo-se à ética e ao respeito às leis e normas.

Quando falamos em “jeitinho brasileiro”, corrupção e desonestidade, quase sempre voltamos o olhar para Brasília. Mas seriam essas condutas exclusivas dos agentes públicos?

Evidentemente, não.

Elas se manifestam em diversos espaços: nos serviços privados, nas corporações, nos pequenos comércios, nas grandes empresas, nos ambientes fechados e nas ruas. Aparecem na prestação de serviços de má qualidade — desde pequenos reparos a atividades altamente especializadas —, nas múltiplas formas de burlar a legislação, que vão das tentativas de suborno até grandes esquemas de desvio de recursos.

E se insinuam, também, nos meios de comunicação — quando a informação é manipulada ou conduzida de forma tendenciosa, moldando a percepção de quem não dispõe de instrumentos críticos para avaliar o que recebe. Nesse caso, a corrupção não é financeira ou material, mas talvez ainda mais letal: é a corrupção do pensamento.

Mas essa realidade seria uma característica exclusivamente brasileira, ou apenas mais um capítulo de uma história muito mais antiga?

A resposta é clara: não se trata de exclusividade nacional.

Esses fenômenos acompanham a própria organização da vida em sociedade, desde os primeiros registros civilizatórios. Há evidências de práticas ilícitas documentadas há quase quatro mil anos. No Código de Hamurábi, na antiga Babilônia (cerca de 1750 a.C.), já existiam sanções contra fraudes e abusos. Na República Romana, eram recorrentes práticas como compra de votos, favorecimentos e desvios de recursos públicos. Durante a Idade Média, práticas como a compra e venda de cargos religiosos — conhecida como simonia — também se faziam presentes. E, em tempos mais recentes, escândalos políticos e financeiros foram registrados em países como Estados Unidos, França, Itália e Alemanha.

Surpreendente, não é? O que hoje chamamos de corrupção, nossos ancestrais já conheciam muito bem.

Não há, portanto, exclusividade geográfica ou cultural. Trata-se de um fenômeno humano — presente, em maior ou menor grau, em todas as sociedades e em todos os tempos.

O Brasil, naturalmente, não está fora desse contexto. O que se observa, sobretudo nos tempos recentes, é uma maior visibilidade desses problemas, acompanhada de uma percepção social amplificada e de desigualdades estruturais que, em determinados contextos, favorecem tais práticas.

Isso não significa que o país seja intrinsecamente mais corrupto, mas sim que enfrenta desafios institucionais e culturais — como tantos outros ao redor do mundo.

A corrupção, portanto, não é uma “marca nacional”, mas uma possibilidade humana, que se manifesta conforme o contexto histórico, político e institucional.

A diferença entre as sociedades está menos na existência do problema e mais na capacidade de enfrentá-lo — e é justamente aí que reside o maior desafio brasileiro: não apenas reconhecer o problema, mas ter a coragem coletiva e institucional de enfrentá-lo.

✒️ Nelson Abrille dos Santos — Escritor | Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios

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