Ecos do Vão da Serra: o portão da escola

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O portão da escola

Na semana passada, contei aqui da saída da Fazenda do Vão para a cidade.

A travessia continuava.

Em 1958, já morávamos na Rua Getúlio Vargas, em Tupaciguara, a umas oito quadras do Grupo Escolar Artur Bernardes, onde fui matriculado no primeiro ano do curso primário.

Acostumado ao ambiente rural, à convivência com poucas pessoas e aos sons da roça, eu ainda conhecia muito pouco daquele novo mundo.

No primeiro dia de aula, caminhei sozinho até as proximidades da escola.

De longe, avistei o portão e o burburinho dos alunos que aguardavam sua abertura. Talvez nem fossem tantos, mas, aos olhos daquele menino de sete anos, formavam uma multidão.

Parei.

Observei os uniformes, os sapatos e as pastas de couro que muitas crianças carregavam. Eu levava meu caderno e o lápis numa sacola de pano com alça a tiracolo — a nossa conhecida capanga.

Não tive coragem de atravessar o portão; aliás, nem me aproximei dele.

Voltei para casa e inventei uma desculpa.

No dia seguinte, fiz a mesma coisa. E assim continuei durante toda a semana. A cada retorno, uma explicação diferente. Era muita imaginação!

Até que a história chegou aos ouvidos de uma tia.

Na segunda-feira seguinte, ela me acompanhou até a escola, levou-me à sala de aula e me colocou diante da professora.

O portão, enfim, havia sido atravessado.

Hoje, tantos anos depois, percebo que os poucos metros que me separavam daquele portão pareciam muito maiores do que as oito quadras que eu havia caminhado até ali.

Naquele tempo, eu não sabia que aquele seria apenas um dos muitos portões que a vida ainda me apresentaria.

✒️ Nelson Abrille dos Santos
Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios

 

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