“A vida humana, concebida sob o ângulo proeminente de sua estrutura moral, espiritual e psicológica, é uma sucessão ininterrupta de curtos espaços de duração, fragmentados cada um deles em três períodos: um para projetar, outro para agir e um terceiro para esperar.”
— Inspirado na Ciência Logosófica.
De tempos em tempos — em ciclos de dez, vinte ou trinta anos, e certamente em intervalos ainda maiores, como os de um século — observamos a repetição ou a renovação de fenômenos de mesma natureza. A história não se repete de modo idêntico, mas sob formas semelhantes.
Percebi isso no mundo empresarial e na vida corporativa, ambiente no qual fui inserido ainda jovem. Passadas seis décadas, testemunhei transformações profundas, sobretudo na área tecnológica. Esses avanços impulsionaram a evolução material da humanidade.
Entretanto, enquanto crescíamos em capacidade técnica, nem sempre demonstramos igual cuidado com nossa outra natureza — a espiritual. No campo da moral e da ética, muitos enxergam fragilidade e retrocesso.
Na década de 1960, calculadoras e sistemas de reprodução de documentos eram rudimentares, comparados aos atuais. Trinta anos depois, nos anos 1990, o cenário já era outro: máquinas fotocopiadoras mais sofisticadas, computadores, fax, telefones celulares. O que antes parecia avanço extraordinário tornou-se rapidamente obsoleto.
Curioso notar que algumas inovações desaparecem com a mesma rapidez com que surgem. O fax, sucesso nos anos 1990, hoje é quase peça de museu — ao lado das antigas calculadoras sem fita de impressão.
Passados outros trinta anos, chegamos à década de 2020 fascinados com a internet e, sobretudo, com a Inteligência Artificial. O salto atual, contudo, parece diferente dos anteriores. Se antes a tecnologia ampliava nossas capacidades operacionais, agora começa a assumir funções intelectuais.
Surge então uma inquietação legítima: a tecnologia nos libertará para atividades mais elevadas ou nos tornará intelectualmente dependentes? Se já havia dificuldade em direcionar a mente para fins transcendentes, não corremos o risco de deixá-la ociosa até mesmo nas tarefas comuns?
Muito se diz que as máquinas substituirão os seres humanos — e isso já ocorre em atividades físicas e rotineiras. Mas seria possível uma substituição integral? Ou a inteligência humana possui dimensões não automatizáveis?
Talvez não estejamos diante do “fim do mundo”, mas do fim de uma Era e do nascimento de uma Nova Cultura.
Ou, como ensina Carlos Bernardo González Pecotche, pode ser que estejamos em mais um desses “curtos espaços de duração”: um tempo de projetar o futuro tecnológico, agir com responsabilidade e, assim, saber esperar os frutos de nossas opções, boas ou más. O desafio não é conter o avanço técnico, mas assegurar, simultaneamente, o nosso avanço interior.
✒️ Nelson Abrille dos Santos.
Belo texto!
Professor Ricardo, grato pelo apoio de sempre!