Quando a memória não anda em linha reta
Vão da Serra não é um memorial clássico.
E nem é uma simples história. É uma obra reflexiva e interpretativa dos acontecimentos.
Ao longo do processo de escrita das minhas memórias, fui percebendo que não escrevo de modo linear. Não sigo uma cronologia rígida, nem parto de um plano fechado que se imponha ao texto. A escrita se organiza à medida que o sentido se revela, em um percurso progressivo de compreensão.
Desde o primeiro volume, essa opção já se manifestava por meio da técnica chamada narrativa em espiral. Parto de um ponto específico da memória, retorno a episódios anteriores, avanço no tempo e volto novamente, sempre sob novas perspectivas. Não se trata de repetição, mas de ampliação. Cada retorno traz um olhar mais amadurecido, fruto da experiência acumulada.
Essa forma de narrar respeita o funcionamento da memória humana. Não lembramos em linha reta. Lembramos por aproximações, associações de fatos e de elementos e camadas que se sobrepõem. O passado não é um território fixo; ele se transforma conforme o presente a partir do qual é revisitado. A narrativa em espiral permite fidelidade não apenas aos fatos, mas ao processo interior de compreendê-los.
No segundo volume, em desenvolvimento, esse método tornou-se mais consciente e foi ampliado. A escrita passou a reunir fragmentos — anotações, reflexões, episódios isolados — sem hierarquia prévia. O texto não impõe uma forma antecipada; ele revela, gradualmente, onde cada parte encontra sentido no conjunto.
Não se trata de improvisação. Há método, ainda que flexível; há critério, ainda que não rígido. O compromisso não é com a ordem cronológica, mas com o sentido.
Por isso, Vão da Serra não se apresenta como um memorial tradicional, mas como um exercício de memória interpretada — uma escrita que busca compreender a vida à medida que a recorda.
✒️ Nelson Abrille dos Santos
(62) 99614-2025