As lições que a vida oferece – de graça: reflexão pessoal sobre o valor das coisas simples, mesmo que o preço pareça amargo

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Na adolescência, a bicicleta era meu mundo. Na juventude, enfrentei o transporte coletivo. Só aos 22 anos, em 1972, pude comprar meu primeiro carro — um Fusca seminovo. Foi uma festa!

Menos de dez anos depois, já possuía dois carros novos na garagem: outro Fusca e um Corcel II. Uma realização, degrau a degrau. Mas a vida, nem sempre previsível, me pregou uma peça. Entrei numa sociedade mal calculada e, de repente, fiquei sem os carros e sem dinheiro. Minha família voltou ao ônibus — por meses, levei os filhos cedo para a escola, muitas vezes debaixo de chuva. Não era vergonha — afinal, grande parte dos brasileiros sempre vive assim. Mas doeu, sobretudo por eles.

O tempo, mestre silencioso, foi passando. Aos poucos, recuperei o patrimônio e, junto com ele, a certeza de que nada é tão sólido quanto pensamos – ainda mais quando falta alguns conhecimentos acima dos bens mentais.

Anos depois, com um Peugeot bonito e tecnológico para a época, presenciei uma cena numa borracharia: um jovem comemorava com entusiasmo o seu primeiro carro – um velho Fusca. Um cidadão ao lado, comentou: “coitado, contente com um carro desses!”. Eu sorri e respondi: “experimenta andar a pé ou de ônibus por três meses e depois me diz se um Fusca não é bom”.

A vida é assim. Ensina. Parece não cobrar, mas o preço cobrado costuma ser amargo.

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Nelson Abrille dos Santos – escritor e consultor jurídico

 

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