O que o sofrimento promove
Se há algo que acompanha silenciosamente a travessia da vida é o sofrimento. Ele não figura nos projetos, não é lembrado quando se sonha o futuro e não é convidado às celebrações. Ainda assim, comparece — às vezes como sombra discreta, outras como noite escura que parece não ter fim.
Há sofrimentos inevitáveis, próprios da condição humana: perdas, despedidas, limitações — cujas causas muitas vezes escapam à compreensão. Há sofrimentos evitáveis, frutos da repetição de condutas erradas, da teimosia, da falta de governo interior — como os que decorrem dos excessos de alimentação e bebida e suas consequências físicas e emocionais. Há os que nascem de conflitos internos, quando a pessoa se afasta de quem realmente é, preferindo as máscaras sociais ao confronto com o próprio ser. E há o sofrimento que nasce da mistura de realidade e ilusão — confusão que, em vez de libertar, aprisiona, não pela dor em si, mas pela falta de clareza para interpretá-la.
É preciso compreender o sofrimento: extraí-lo da condição de peso bruto e transformá-lo em instrumento de superação pessoal. Quando isso ocorre, a dor não desaparece magicamente, mas deixa de ser estéril — passa a ter direção. O sofrimento que encontra sentido não se repete da mesma forma; cumpre sua função e se dissolve, como o mestre que se retira quando a lição foi aprendida.
Talvez por isso a vida não elimine a dor do caminho humano. Sem ela, muitas ilusões jamais seriam desfeitas, muitas vaidades jamais seriam revistas, muitos rumos jamais seriam corrigidos.
O sofrimento, quando compreendido, trabalha onde ainda se é bruto, onde se resiste, onde se ignora. E cumpre silenciosamente sua tarefa maior: conduzir o ser humano, pouco a pouco, a tornar-se mais lúcido, mais responsável e mais próximo daquilo que, em essência, está destinado a ser.
Para isso, exige-se a virtude da adaptação — e sua assimilação como conhecimento, como ensina a Logosofia:
A adaptação é um poder consubstancial com a natureza física e psíquica do homem, que lhe permite suportar os maiores sofrimentos e incômodos sem perder as prerrogativas de seu gênero. Mas, mesmo sendo consubstancial, esse poder só se manifesta com todo o vigor de sua potencialidade quando se leva a adaptabilidade à prática, depois de sua assimilação como conhecimento. É razão de sobra para se proceder ao exercício voluntário desse poder que promove a adequação da vida às mil e uma dificuldades que se lhe apresentam, evitando o desgaste de resistências inúteis. (Deficiências e propensões do ser humano, p. 54)
✒️ Nelson Abrille dos Santos — Escritor | Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios
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