QUANDO A INQUIETUDE APONTA UM CAMINHO
Há momentos em que tudo parece estar no lugar.
Temos trabalho, convivemos com pessoas de quem gostamos, fazemos planos e não encontramos uma razão concreta para mudar.
Mesmo assim, alguma coisa começa a nos inquietar.
Foi o que aconteceu comigo aos 17 anos.
Depois de sete meses procurando emprego, havia conseguido uma boa colocação na Citusa, em Tupaciguara, trabalhando na área contábil. Estava fascinado, estudava no curso Técnico em Contabilidade e vivia uma fase bastante agradável.
Mas não demorou a surgir uma pergunta:
“E se eu perdesse esse emprego?”
Nada havia acontecido. Eu continuava empregado e satisfeito com o trabalho. Ainda assim, aquela pergunta despertava em mim a ideia de buscar outros caminhos.
Naquele tempo em Tupaciguara, eu não enxergava outra empresa em que pudesse exercer uma função ligada à contabilidade.
Comecei a pensar em São Paulo, onde morava uma tia.
Até que, numa conversa aparentemente comum, surgiu outra possibilidade.
Quase todos os dias, ao final do expediente, eu caminhava empurrando a bicicleta ao lado de Paulo de Sousa Ribeiro, o Paroba, contador de uma das empresas do grupo.
Certo dia, contei a ele que pensava em ir para São Paulo.
— Por que São Paulo?
Expliquei que tinha uma tia morando lá.
E ele respondeu:
— Nerso, vamos pra Goiânia!
Paroba pretendia comprar um escritório na capital e me convidou para trabalhar com ele.
A ideia encontrou terreno preparado.
Goiânia já me era familiar. Eu havia morado e trabalhado lá. De repente, aquilo que era apenas uma inquietação começava a ganhar forma.
Mas a compra do escritório demorava.
Eu tinha pressa.
Escrevi então para o Sr. Hélio Lacerda de Souza, meu antigo patrão em Goiânia, perguntando sobre a possibilidade de emprego.
A resposta veio por telegrama: “Sua vaga está disponível.”
O caminho estava aberto.
Quando comuniquei a decisão ao meu pai, veio outra surpresa. Diante das dificuldades que ele próprio enfrentava com o Armazém Mundial, respondeu sem hesitar:
— Vamos todos nós!
E fomos.
Ou melhor: eles foram primeiro. Eu permaneci em Tupaciguara até cumprir o aviso-prévio, retornando a Goiânia no início de 1968.
Hoje, ao revisitar aquele episódio, o que mais me chama a atenção não é a mudança de cidade.
É o que aconteceu antes dela.
Por que comecei a pensar em deixar Tupaciguara justamente quando estava satisfeito com meu trabalho?
Por que aquela pergunta sobre a possibilidade de perder o emprego apareceu naquele momento?
E por que a sugestão de Paroba encontrou em mim uma receptividade tão imediata?
Não tenho respostas para tudo isso.
Mas a experiência me ensinou a prestar mais atenção às inquietudes que surgem ao longo da vida.
Nem toda inquietação significa que devemos abandonar o que estamos fazendo. Algumas nascem do medo, da ansiedade ou de uma insatisfação passageira.
Outras, porém, parecem nos colocar diante de possibilidades que ainda não conseguimos enxergar com clareza.
Talvez por isso certas decisões só sejam compreendidas muito tempo depois.
Quando estamos dentro dos acontecimentos, vemos apenas fragmentos: uma pergunta, uma conversa, uma ideia, uma carta, um telegrama.
Anos depois, olhando o conjunto, percebemos que aqueles pequenos acontecimentos estavam ligados.
No meu caso, uma pergunta aparentemente sem motivo acabou antecedendo uma mudança que não seria apenas minha.
Desta vez, no retorno a Goiânia, vinha comigo toda a família.
E dali surgiriam novos caminhos, novos encontros e boa parte da história que eu ainda viveria.
Talvez algumas inquietudes sejam apenas isso: inquietudes.
Mas outras merecem ser observadas.
Porque, às vezes, antes de surgir diante de nós, um novo caminho começa silenciosamente dentro de nós.
Ecos do Vão da Serra
✒️ Nelson Abrille dos Santos
Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios
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