Ecos do Vão da Serra: uma orientação do passado, presente por toda a vida.

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Uma orientação do passado, presente por toda a vida

Há ensinamentos cuja influência em nossa trajetória só percebemos com a passagem dos anos.

Em 1968, matriculei-me no Colégio Comercial de Vila Operária, em Goiânia, para cursar o segundo ano do Técnico em Contabilidade, trazendo uma dificuldade antiga: expressar minhas ideias por escrito.

Logo nos primeiros dias de aula, o professor de Português, Rui Bueno, passou uma redação como tarefa de casa. Na data da entrega, recorri a um recurso que vinha utilizando desde o ginasial: faltei à aula.

Era uma maneira de adiar o encontro com a própria dificuldade. Enquanto não entregasse o texto, também não precisaria expor o que eu ainda não conseguia fazer.

Dessa vez, porém, a falta não resolveu o problema. Na primeira oportunidade, o professor cobrou a redação, e tive de admitir minha dificuldade.

Foi assim que começou uma orientação que marcaria minha vida.

Seu primeiro ensinamento foi simples: para aprender a escrever, eu precisava criar o hábito de ler bons livros. Depois, presenteou-me com três obras. Uma delas tratava de Bernardo Sayão e de seu trabalho na abertura da BR-153 em Goiás.

O professor foi além da cobrança da tarefa. Indicou um caminho e me ofereceu meios para começar a percorrê-lo.

Sob sua orientação, desenvolvi o apreço pela leitura e pela escrita. Os resultados vieram aos poucos. No início de 1970, ao prestar o vestibular de Ciências Contábeis, obtive em Português minha melhor nota entre as disciplinas. A redação tinha grande peso naquela prova.

A escrita, que antes me levava a faltar à aula, começava a abrir possibilidades de avançar.

Naquele momento, eu não poderia imaginar quanto precisaria da escrita ao longo da vida: nos contratos, nos laudos, nos artigos, nos livros técnicos e, mais tarde, nas memórias. Tampouco percebia que escrever também me ajudaria a falar com mais clareza, enriquecendo o vocabulário e organizando os pensamentos.

Só com o passar dos anos pude compreender o alcance daquele gesto aparentemente simples.

Hoje, 15 de outubro, ao recordar meu mestre Rui Bueno, reconheço o valor de sua atenção. Ele percebeu uma dificuldade que eu procurava esconder e me ajudou a enfrentá-la. Nesta lembrança, estendo minha homenagem a todos os professores.

Penso em quantos ensinamentos recebemos assim: numa conversa, numa orientação, num gesto de alguém que se dispõe a nos ajudar. Nem sempre compreendemos de imediato o que representam. Às vezes, precisamos olhar para trás para reconhecer o caminho que abriram.

A redação que não entreguei ficou no passado. A orientação que recebi continua presente no que escrevo.

E você: que ensinamento recebido lá atrás continua produzindo efeitos em sua vida?

Texto inspirado no Capítulo 14 de Vão da Serra – A vida e seus mistérios.

✒️ Nelson Abrille dos Santos


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