Entre viver e compreender
Ao longo da vida, há acontecimentos que não compreendemos inteiramente quando os vivemos.
Enxergamos os fatos com os recursos que temos: a idade, a experiência, os conhecimentos e, principalmente, a posição que ocupamos dentro da própria história.
Foi assim com o Armazém Mundial.
Quando retornei a Tupaciguara, em fins de 1966, encontrei o pequeno comércio de meus pais transformado. O antigo boteco havia crescido e se tornado quase um atacadista de secos e molhados.
Pouco depois, meu pai deixou o emprego e passou a dedicar-se inteiramente ao negócio.
Parecia um caminho natural. O Armazém crescia, havia movimento, mercadorias nas prateleiras e razões para acreditar que as coisas continuariam dando certo.
Não continuaram.
Sem o salário de meu pai, passamos a depender financeiramente do próprio negócio. Ao mesmo tempo, sua generosidade foi abrindo espaço para o velho caderno de fiado.
Vendia-se, mas nem sempre se recebia.
Aos poucos, faltou dinheiro para repor as mercadorias. As prateleiras começaram a esvaziar. Os fregueses desapareceram. E aquilo que antes era estoque transformou-se em créditos que não eram recebidos.
Eu estava ali. Vi tudo acontecer.
Mas uma coisa é viver uma experiência; outra é compreendê-la.
Naquela época, aos dezessete anos, eu não tinha conhecimentos suficientes para perceber, por exemplo, que a retirada de recursos para sustentar a família comprometia o capital de giro do negócio.
Isso eu só compreenderia muitos anos depois.
Guardo, porém, uma cena que o tempo não apagou.
Certo dia, diante da situação já irreversível, meu pai pegou o caderno de fiado, caminhou até o meio da rua, rasgou suas folhas, amontoou-as e ateou fogo.
— Melhor esquecer!
Era o jeito dele.
Não remoía os fracassos. Não permanecia preso ao que havia dado errado. Seguia adiante.
Décadas depois, ao escrever sobre aquele episódio, percebi que eu fazia algo diferente.
Meu pai queimou o caderno.
Eu voltei a ele.
Não para reabrir contas, procurar culpados ou lamentar o que poderia ter sido diferente. Voltei para tentar compreender aquilo que, quando aconteceu, eu apenas havia vivido.
Talvez seja uma das possibilidades que o tempo nos oferece.
Ele não altera o acontecimento. Não recompõe as prateleiras, não recupera o que se perdeu nem permite refazer as escolhas.
Mas pode modificar o olhar de quem retorna à experiência.
Há fatos que só muito mais tarde revelam aspectos que, no momento em que ocorreram, não tínhamos condições de perceber.
Por isso, recordar não precisa significar viver novamente o passado.
Pode significar compreender hoje aquilo que ontem apenas vivemos.
Ecos do Vão da Serra
✒️ Nelson Abrille dos Santos
Autor de Vão da Serra – A Vida e Seus Mistérios
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