Nesta oportunidade, vou abordar um aspecto que raramente lembramos: o de que somos a continuação da criança que fomos – somos uma sucessão de seres.
Nas primeiras páginas do Vão da Serra (Palavras Iniciais), consignei minha gratidão a González Pecotche, com quem tomei contato por meio de seus ensinamentos, em 1992.
Na página 82, a força de uma epĂgrafe logosĂłfica ressoa: “O ser Ă© uma sucessĂŁo de seres” e “De cada um depende que o ser de hoje nĂŁo comprometa o de amanhĂŁ.”
NĂŁo sei precisar a partir de que idade começou a inquietar-me a busca de uma explicação para tantos acontecimentos em um curto perĂodo da minha vida — nos  meus primeiros quinze anos.
Essas inquietações estavam ligadas a duas fotos. A primeira, tirada num dia de festa no Porto dos Barreiros, quando eu tinha quatro ou cinco anos. A segunda, já em março de 1966, na capital goiana.
Antes, uma criança da roça; agora, um auxiliar de escritório, trajando camisas de mangas longas e gravata. Entre um momento e outro, apenas cerca de dez anos — um intervalo pequeno para tantas transformações.
Pois bem, ao escrever o Vão da Serra, encontrei tantas outras respostas e explicações antes nem cogitadas.
A dedicação aos estudos — não só os de caráter profissional, mas também os voltados à compreensão da vida —, especialmente nos últimos anos, e, nos últimos meses, o escrever intensamente, têm sido a minha “diversão” predileta. Isso também é uma inspiração na Logosofia.
No exercĂcio dessa “diversĂŁo”, voltei a deparar-me com um ensinamento logosĂłfico, antes lido sem maior atenção — talvez atĂ© inconscientemente —, que fala do ser que todos nĂłs temos esquecido: aquele em quem ninguĂ©m pensa, embora constitua algo essencial para a nossa vida. Está no livro Diálogos, p. 174.
Nele, Pecotche ensina que podemos pensar que o adulto é a continuação da criança, mas nunca pensamos que a criança morre quando nasce o homem.
Eu, pelo menos, nunca havia pensado assim — claramente. E você?
E mais: quem pensa nessa criança e a contempla atravĂ©s de suas recordações, verá o quanto tem a aprender com ela. Seria bom que cada um recordasse a criança que foi, pois nessa recordação está implĂcito o enlace da existĂŞncia presente com a que se foi.
São muitas as reflexões que acodem à mente quando a recordação converge para a infância; mas é necessário evocá-la com frequência, para que nos inspire ideias sobre as quais talvez nunca tenhamos pensado.
Se esquecemos nossa própria criança — aquela que “morreu” —, cometemos, talvez sem querer, um crime simbólico: morrerá também o jovem e, sucessivamente, o que fomos e somos em cada idade. Assim, irá se apagando no esquecimento e, sem que a percebamos, morrerá em nós, lentamente, toda a nossa vida.
Não será essa uma grande oportunidade de evitar essa catástrofe silenciosa?
Quanta alegria e gratidão ao ler agora esse ensinamento logosófico e perceber o quanto o livro Vão da Serra me permitiu refletir sobre a redenção de um crime simbólico! Mais ainda: proporcionou-me não apenas reviver todas as fases da minha atual etapa de vida, como também evitar que tudo se perdesse no esquecimento. Foi, em essência, um ato de reconstrução individual.
O VĂŁo da Serra tem sido uma porta de reencontro comigo mesmo, um caminho para encontrar novos amigos e uma ponte de reencontros com os antigos.
É isso que o livro propõe também ao leitor: experimentar a inefável alegria de um reencontro consigo mesmo, através das recordações da criança que foi — ainda que apenas em suas reflexões.
E talvez seja esse o maior propósito da escrita: transformar a lembrança em consciência — para que, ao revisitarmos o passado, possamos reencontrar a nós mesmos.
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Nelson Abrille dos Santos – Escritor de Vão da Serra
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